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Domingo
1:42. Minha fome sobreviveu ao desespero da primeira hora, à loucura dadaísta de depois, somou-se o lirismo marquesiano. Aquela não era a minha vida, mas resistia. Acordei com o ressoar solitário do sino da pequena igreja que fazia sombra no apartamento. 2:59. Imaginei o padre raquítico da paróquia, arrependido, lançando seu pedido de socorro. O sujeito fumava aos montes, denunciado pelas suas unhas amarelas. E sempre desconfiei da altura de seus olhares. Carreira ingrata era preparar seus tratados para mendigos que brotavam como peixes naqueles bancos, destinados a virgens e beatas. Acabei por entregar minha insônia a uma fita hollywoodiana qualquer, com bonecos de cera disfarçados de alunos em Harvard ou Cambridge. 10:13. Olhares tontos e solilóquios. Mais um sábado. Cambiei meus modos de ser por sono e me deixei tragar pelo silêncio. As frutas apodreciam na geladeira, mamãe no quarto e me arrastava. Era assim alguns dias de feriado, porque eu não comia mais frango de padaria e nada mais havia por fazer. Ela comia uma pizza de mussarela em frente a novela e me escondia em um romances das listas idiotas de coisas que se deve fazer antes de morrer. Se eu soubesse o que fazer antes de morrer não teria parado de comer carne, mamãe não estaria sozinha vendo TV e eu saberia o que fazer num domingo de sol. Mas assim como na filosofia da indústria farmacêutica, há males que devem permanecer sem cura. Pelo menos por enquanto. 14:30. Matei a última barata que insistia pelas paredes da cozinha. Não ligávamos pra isso. Éramos generosas o suficiente para dividir nossa comida com as baratas que viviam conosco no apartamento 33. Estávamos muito ocupadas em afastar nossos insetos internos. 14:45. Agora minha irmã que vem obesa e carregada de filho, bolsas, dívidas. Fingi compromisso em um gesto sério. Afaguei o sobrinho que nunca entendi e desci escadas abaixo. Secretamente todos sabiam que eu iria para nada. Rosângela, a manicure dizia que era pecado, mas à juventude, tudo se perdoava. Mesmo o pink flúor das minhas unhas, mesmo a cama deixada por fazer. Eu nunca quis isso. Eu nunca quis que a nossa relação fosse esse chá morno e sem gosto que fica esquecido em cima da mesa. Deixando apenas uma marca eterna na madeira. Mas fato é que não me importo mais.