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Fernando,
Um recado. Não fui capaz de deixar. Nem meu perfume ou um número para o qual ligar. Pulei o muro sem declarações ou poesia. Só um nome. E fiquei repetindo sua voz, as palavras voando. No dicionário faltaram significados. Te esquecerei, apagarei sua pele e os olhos. Mas um gesto ainda me assalta. Viverei de rascunhos jogados fora.
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Rô,
A gente nunca deu certo. A gente sempre viu um mar de possibilidades, mas nunca teve a coragem - ou a vontade - de pular. Fomos até a beira e achamos que isso bastava, ver o horizonte e saber que não te pertence machuca mais. Eu sempre gostei de te delinear. Esboçar o sorriso que você me daria, rascunhar uma frase, vislumbrar seu abraço. Mas você não chegou a ser uma brisa, sopro finito. E agora eu só quero o que eu puder tocar com a minha realidade. Fica como sempre foi, cada um pra um lado. Mas te guardo, um achado que fica na gaveta. Outro.
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Dan,
You know that. Se fôssemos os Beatles, eu seria o John e você, o Paul. E a gente se separaria antes de lançar o Revolver. Mas como estou mais pra Yoko Ono e você pra Elvis, felizmente convivemos sem ter que brigar por versos e acordes. Apenas discutimos madrugada adentro, cortando esquinas, travando duelos por opiniões e mentiras. Quantas noites. Quantos absurdos, porque absurdamente sempre estamos errados. Erro quando acho que te conheço e você quando tem certeza sobre os que estão a minha volta. Tudo muda sempre, exceto que discordaremos ad infinitum. E essa certeza me consola.
Cuz you rock. -
…
“Antes de começar a escrever eu tinha a impressão de que ia lhe contar como eu tenho escrito, como eu tenho duvidado, como eu acho horrível o que tenho escrito (…) eu pensava em dizer tudo isso, estava num impulso de sinceridade e confissão que muitas vezes eu tenho em relação a você. Mas não sei, talvez porque você nunca tenha sentido em relação a mim esse mesmo impulso, eu fico de repente apenas com as palavras que eu queria dizer mas sem gostar delas.”
(Clarice Lispector) -
2010
Vou escrever mais, ler mais, o que for de menos, descarto.
Vou viajar sempre, entre linhas, trópicos. Entre línguas desconhecidas.
E cuidar mais de mim, da minha saúde. Do que insiste em cair e não esticar mais, nunca.
E ser generosa. Doar o que tenho, do que quero, dividio.
Paciência… -
Domingo
1:42. Minha fome sobreviveu ao desespero da primeira hora, à loucura dadaísta de depois, somou-se o lirismo marquesiano. Aquela não era a minha vida, mas resistia. Acordei com o ressoar solitário do sino da pequena igreja que fazia sombra no apartamento. 2:59. Imaginei o padre raquítico da paróquia, arrependido, lançando seu pedido de socorro. O sujeito fumava aos montes, denunciado pelas suas unhas amarelas. E sempre desconfiei da altura de seus olhares. Carreira ingrata era preparar seus tratados para mendigos que brotavam como peixes naqueles bancos, destinados a virgens e beatas. Acabei por entregar minha insônia a uma fita hollywoodiana qualquer, com bonecos de cera disfarçados de alunos em Harvard ou Cambridge. 10:13. Olhares tontos e solilóquios. Mais um sábado. Cambiei meus modos de ser por sono e me deixei tragar pelo silêncio. As frutas apodreciam na geladeira, mamãe no quarto e me arrastava. Era assim alguns dias de feriado, porque eu não comia mais frango de padaria e nada mais havia por fazer. Ela comia uma pizza de mussarela em frente a novela e me escondia em um romances das listas idiotas de coisas que se deve fazer antes de morrer. Se eu soubesse o que fazer antes de morrer não teria parado de comer carne, mamãe não estaria sozinha vendo TV e eu saberia o que fazer num domingo de sol. Mas assim como na filosofia da indústria farmacêutica, há males que devem permanecer sem cura. Pelo menos por enquanto. 14:30. Matei a última barata que insistia pelas paredes da cozinha. Não ligávamos pra isso. Éramos generosas o suficiente para dividir nossa comida com as baratas que viviam conosco no apartamento 33. Estávamos muito ocupadas em afastar nossos insetos internos. 14:45. Agora minha irmã que vem obesa e carregada de filho, bolsas, dívidas. Fingi compromisso em um gesto sério. Afaguei o sobrinho que nunca entendi e desci escadas abaixo. Secretamente todos sabiam que eu iria para nada. Rosângela, a manicure dizia que era pecado, mas à juventude, tudo se perdoava. Mesmo o pink flúor das minhas unhas, mesmo a cama deixada por fazer. Eu nunca quis isso. Eu nunca quis que a nossa relação fosse esse chá morno e sem gosto que fica esquecido em cima da mesa. Deixando apenas uma marca eterna na madeira. Mas fato é que não me importo mais.
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Fabricio,
Eu não acho que tenha sido um atalho. Seria, se a vida fosse só um caminho, mas eu acho que é O caminho. Seria atalho se levasse para alguma coisa, e o nada não é um destino. Chegar mais rápido em nenhum lugar é cortar caminho, amputá-lo. Atalho pro nada não. Porque a vida continua, mesmo depois do fim. Ficam os sonhos, os gestos, os porquês. O que você não resolveu, fica pros outros. E isso, me desculpe, mas não é morte. É atraso.
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Consu,
Gosto do seu nome. Gosto de como você me faz renovar o meu gosto pelas pessoas e pelas palavras. E como elas saem fáceis e bailarinas quando te conto a minha vida inteira. Dos seus gostos. Mas esses nem tanto, porque gosto de te desgostar. No pequeno planeta em que vivemos, nos invadimos e regamos nossas rosas de principito. Gosto que me transportas para um montanha com formato de elefante. Personagens fantásticos, inexplicáveis, em um cenário de lápis de cor. Já sei, tonterias. Espero te ver em breve. Cuidate.
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Ele não sabe…
Ele não sabe mais nada sobre mim. Não sabe que o aperto no meu peito diminuiu, que meu cabelo cresceu, que os meus olhos estão menos melancólicos, mas que tenho estado quieta, calada, concentrada numa vida prática e sem aquela necessidade toda de ser amada. Ele não sabe quantos livros puder ler em algumas semanas. Não sabe quais são meus novos assuntos nem os filmes favoritos. Ele não sabe que a cada dia eu penso menos nele, mas que conservo alguma curiosidade em saber se o seu coração está mais tranqüilo, se seu cabelo mudou, se o seu olhar continua inquieto. Ele nem imagina quanta coisa pude planejar durante esses dias todos e como me isolei pra tentar organizar todos os meus projetos. Ele não sabe quantos amigos desapareceram desde que me desvencilhei da minha vida social intensa. Que tenho sentido mais sono e ainda assim, dormido pouco. Que tenho escrito mais no meu caderno de sonhos. Que aqui faz tanto frio, ele não sabe por mim. Ele não sabe que eu nunca mais me atentei pra saudade. Que simplesmente deixei de pensar em tudo que me parecia instável. Que aprendi a não sobrecarregar meu coração, este órgão tão nobre. Ele não sabe que eu entendi que se eu resolver a minha dor, ainda assim, poderei criar através da dor alheia sem precisar sofrer junto pra conceber um poema de cura. Hoje foi um dia em que percebi quanta coisa em mim mudou e ele não sabe sobre nada disso. Ele não sabe que tenho estado tão só sem a devastadora sensação de me sentir sozinha. Ele não sabe que desde que não compartilhamos mais nada sobre nós, eu tive que me tornar minha melhor companhia: ele nem imagina que foi ele quem me ensinou esta alegria.
(Maria de Queiroz) -
[L]
Faz uma segunda-feira tão mundana e eu me encanto com uma lua que não existe. Como a vida pode ser fantástica às vezes.